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Fónix Lab

Laboratório para exprimir (opiniões) admiração, indignação ou impaciência, em torno de temas atuais.

Fónix Lab

Laboratório para exprimir (opiniões) admiração, indignação ou impaciência, em torno de temas atuais.

O triunfo da mediocridade

O estado da arte da literacia política em Portugal

26
Fev20

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É sabido que o mundo em que vivemos exige multiliteracias.

É sabido que a escola deve desenvolver estas competências nos seus alunos.

É sabido que para cada problemática da sociedade se cria uma nova literacia.

Mas, caro leitor, já parou para pensar que ninguém fala da literacia política?

Esta conversa, num grupo de amigos, levou-nos a uma leitura que fizemos de um artigo no La Vanguardia em que o Nobel da Economia, Paul Krugman, reflete sobre a crise da verdade e aquilo a que nós, Fónixlab, gostamos de chamar iliteracia política. De facto, tal como nos diz este economista, hoje triunfam os piores, pois as pessoas não se importam com as mentiras, aliás gostam de acreditar no que lhes é mais conveniente. E, inúmeras vezes, são as "mentiras de estado" que interessam a pessoas "políticamente estúpidas." Mas “Si las personas son políticamente estúpidas es porque hay gente muy interesada en matenerlas así".

Caro leitor, não concorda com Paul Krugman, quando diz que a honestidade é uma virtude que parece ter desaparecido da vida pública?

Inúmeras são as personalidades que apontam o dedo a esta forma de fazer política, de que é exemplo Lídia Jorge que, num artigo publicado no Público de 23 de fevereiro de 2020, refere que "É preciso criar um estado de alarme". O que está em linha com o que diz Paul Krugman que defende a necessidade de os especialistas alterarem a sua forma de comunicar, deixando de fingir que estão a manter discussões honradas e sinceras.  

Lídia Jorge lança, ainda, um desafio direto aos intelectuais, aos professores, aos jornalistas, pedindo-lhes “uma atitude de resistência” e que criem “um estado de alarme” que acorde as consciências.

Não resistimos a repetir aqui o que diz Lídia Jorge e que espelha bem o mundo imoral em que vivemos: "Para quê ter dez, 30, 60 milhões de euros? Não consigo compreender. Sobretudo quando isso significa um desequilíbrio social tão grande. É inadmissível. Mas não há nome para essa doença, os escritores vão ter de inventar."

E nós caro leitor? O cidadão comum o que está disposto a fazer para mudar este estado de coisas?

Sabemos que a educação e a cultura são cada vez mais importantes para fomentar um estado de verdade. Mas para isso os media, que têm o domínio total naquilo que cada um de nós pensa, devem reger-se pelos factos e pela verdade e não pela necessidade absurda de ter audiências e, infelizmente, muitas vezes, serem submissos aos poderes instituídos!

Gritemos!

Escrevamos!

Manifestemo-nos!

Insurjamo-nos! 

Deixem os professores ensinar! Os jornalistas informar! As pessoas falar! Revoltemo-nos contra o triunfo da mediocridade!

PS. Um pouco acelerados, com o coração em sobressalto, tal como acontece sempre que refletimos sobre estas coisas, olhamos para o verde que nos rodeia e pensamos que tínhamos tudo para sermos e estarmos, TODOS, bem melhor! 

Que pena caro leitor!...

Se preferir oiça aqui o podcast:

Escolas inovadoras

Mitos e verdades

02
Fev20

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Os raios de sol despontam e apetece sair de casa. No grupo de amigos não pode faltar, nunca falta, um casal de professores.

A conversa corre natural e boa... e vai parar a uma reportagem emitida, ontem, na SIC Notícias, e já repetida, hoje.

Uma reportagem que nada acrescenta.... mais do mesmo, caro leitor.

A velha sala de aula do futuro! Os nossos colegas professores riem-se sempre destas reportagens, pois sabem que é apenas marketing. A realidade - professores, alunos e pais conhecem-na bem - é que as escolas não têm infra-estrutura, nem tecnológica nem humana, que a sustente, sendo estas "salas do futuro" ou "ambientes inovadores" perfeitamente elementares. Isto é, são uma espécie de arrecadação que alberga alguma da tecnologia, que existe por todos os agrupamentos. Só lhe acrescent(ar)am umas cadeiras com rodas. 

Que maravilha para miúdos e graúdos, não acha caro leitor?

Se não, vejamos:

Um quadro interativo que existe em praticamente todas as escolas, mas que é comummente usado como tela de projeção. A tela de projeção mais cara do mundo!

As cadeiras que deveriam permitir a mudança de estratégia educativa, mas que apenas servem... de cadeira, onde os alunos se sentam para olhar o professor ou o ecrã.

A impressora 3D, usada nas reportagens e depois relegada ao esquecimento e ao pó.

Os computadores e tablets que nem sempre podem ser usados porque a rede não está corretamente dimensionada para os suportar. E isto quando há internet!

A câmara de filmar, raramente usada, e que pode ser substituída, com vantagem, por um smartphone ou um bom tablet.

Enfim, o paraíso para os fornecedores de material eletrónico e o sonho de qualquer Município que assim gasta fundos comunitários e "cativa" os eleitores com obra feita. Concorda connosco, caro leitor?

A conversa flui e rapidamente chegamos à constatação mais básica e universal:

A tecnologia por si só não muda nada, não melhora as práticas letivas, nem os resultados escolares dos alunos.

Já em 2016, o investigador espanhol Alfredo Hernando fez um estudo sobre a escola do séc. XXI onde conclui que as escolas mais inovadoras são as que partilham. “Em termos metodológicos, [as escolas] partilham ferramentas como a aprendizagem através de projetos, as aulas dadas de forma cooperativa, [o facto de haver] ferramentas de avaliação variadas, os compromissos de aprendizagem celebrados entre aluno e professor..."

Realçamos esta conclusão do estudo, caro leitor, "As aulas devem ser feitas pelo aluno, não pelo professor“, defende.

PS. Temos de ensinar os nossos alunos a pensar, a transformar a informação em conhecimento, a tomar posições fundamentadas, a saber ouvir, a fazer-se ouvir, a comunicar! E se pudermos fazer isto em ambientes inovadores, aí sim estaremos no caminho certo!

Se preferir oiça o podcast:

Os melhores do Mundo

Ao sabor dos números

12
Jan20

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Restabelecidos das festas e festejos, muitas delas pela obrigação que o calendário impõe e que nos impossibilitaram de fazer aquilo de que tanto gostamos e em que somos os melhores do Mundo (decerto nos perdoará, caro leitor), aqui estamos:
 
Ano novo, (mas) Vida (continua) velha.
 
Por muito que a esperança seja a última a morrer, quando paramos para pensar no mundo que nos rodeia, em que nos vendem como os melhores do mundo, toma-nos uma indignação surda. 
 
Caro leitor, já tínhamos saudades suas, ou não fosse o melhor leitor do mundo!...
 
Portugal tem uma das melhores localizações geográficas para a vida humana. 
Sabemos que os nossos profissionais (militares, políticos, professores, médicos, enfermeiros, gestores, engenheiros, investigadores, cientistas, gestores, futebolistas, treinadores...) são dos melhores do Mundo.
 
Esta último categoria é digna de parentêses caro leitor. Já tínhamos o "Special one", devidamente condecorado com a ordem do Infante D. Henrique, agora temos mais um... O Infante D. Henrique começa a não chegar para as (en)comendas.
 
E não podemos esquecer as artes, a literatura, o cinema, o teatro, a música, a arquitetura, as tradições, a bebida, o azeite, o mel, a comida... o pão de milho, o pastel de nata, a alheira, o presunto, o queijinho...
 
Fónix, já estamos com fome!
 
Em suma somos os melhores do Mundo! Mas não paramos por aqui.
 
Temos, também, o melhor ministro das finanças da Europa, arriscamos até a dizer o melhor do mundo! Aquele que criou a maior carga fiscal de sempre, por via de taxas, taxinhas... o cativador mor...
 
Temos, também, um dos maiores governos de sempre e dos maiores do continente europeu. E, como sabemos que quantidade não é sinónimo de qualidade, fica tudo dito.
 
Sabia, caro leitor, que a média na Europa é de 16,5 ministros e Portugal tem 19? Este novo governo tem o maior número de ministérios desde 1976.
 
Somos o 5.º país da Europa com salários mais baixos e o 3.º pior da União Europeia, se tivermos em conta o poder de compra. Atrás de nós, só a Eslováquia e a Hungria.
 
Mas somos, continuamos a ser, todos os dias, os melhores do Mundo!
 
Os portugueses pagam mais do próprio bolso para a saúde do que os restantes europeus, porque o Serviço Nacional de Saúde tem um nível “elevado” de despesas não reembolsadas. 
 
Os professores portugueses são os mais velhos de entre os países da OCDE, que refere que só 1% dos professores em Portugal tem menos de 30 anos (que contrasta com uma média europeia de 11%).
 
E os números continuam, caro leitor!
 
Apesar de preferirmos as letras aos números, somos inundados, diariamente, por números que são trabalhados com o fim que se lhes pretende dar, veja-se o caso do excedente orçamental.
 

 Contudo, Portugal mantém-se como o terceiro país da Europa com o maior rácio de dívida pública, a seguir à Grécia e à Itália. 

De acordo com a organização Transparência Internacional, que avaliou 180 países e territórios, Portugal ocupa uma honrosa 30ª posição, no que respeita à corrupção. O Conselho da Europa diz, ainda, que Portugal é o país que menos cumpre recomendações contra a corrupção.

Os parlamentares de Portugal - os melhores do Mundo -  ganham, por ano, mais do dobro do salário médio anual do país, ao contrário dos políticos de muitos países, por exemplo o dos espanhóis que ganham uma quantia idêntica à média do salário do país, de acordo com o relatório MSN MONEY (2019).

PS. Pois é, magnífico leitor, tudo na mesma, num país que muitas vezes parece de "faz de conta". Continuamos a deixarmo-nos adormecer ao som desta canção de embalar que os políticos tão bem dominam e que se poderia intitular "Números para cidadão dormir".

Se preferir, oiça o podcast:

A emergência da leitura

Aprender a ler, para ler o Mundo (PISA, 2019)

15
Dez19

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Clique na imagem para ver o infográfico

Na semana em que saíram os resultados do PISA, ficámos confusos perante a discrepância das notícias. Como é possível ler e inferir conclusões diferentes de um mesmo relatório? Afinal a escola que temos construído permite aos jovens desenvolver as competências que as políticas educativas por todo o Mundo consideram cruciais?

Parece-nos claro que, de uma forma geral, os media se preocuparam em polarizar o lugar que cada país ocupa no ranking, sem refletirem sobre o impacto que estes resultados deveriam ter nas políticas educativas europeias e mundiais.

Caro leitor, sabemos que a economia, assente no capital humano, se preocupa com estes rankings, mas será que os resultados obtidos são o retrato fiel do que sabem os alunos de cada país?

Alguns especialistas, um pouco por todo o Mundo, chamaram a atenção para a heterogeneidade dos países participantes e para a tremenda diferença que existe entre os diversos sistemas educativos. Não esqueçamos, ainda, a manipulação de dados, quer na fonte, com a seleção criteriosa das escolas e dos alunos que responderam aos questionários, quer centralmente, veja-se o caso de Espanha.

Os sociólogos que se debruçaram sobre estes resultados refletem, sobretudo, acerca das desigualdades que caracterizam os sistemas educativos, sendo clara a relação que existe entre os bons resultados no PISA e a valorização, pela sociedade, da escola, do ensino e dos professores. Não é tanto uma questão de melhores condições de trabalho e remuneratórias, mas sim de cultura.

Alguns analistas, como Maxime Tandonnet, alertam, também, para o perigo de se terem passado décadas e décadas a nivelar a qualidade do ensino por baixo e chamam a atenção para os perigos daí decorrentes.

De facto, é extraordinariamente preocupante que um em cada 10 alunos não distinga factos de opiniões, apesar de esta ser, como nos diz, Francisco Sena Santos, "a geração mais informada da história":

PS. Ler o Mundo implica parar, ver, ouvir, observar para agir em conformidade e só o conseguimos fazer se soubermos LER. Por isso, caros decisores, deem tempo aos professores para ensinar e aos alunos para aprender.

 

Oiça aqui a crónica, se preferir:

 

Greta versus Joker

Quem venera quem?

01
Dez19

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As últimas notícias saídas a público sobre as reações do poder político a propósito da vinda de Greta a Portugal parecem saídas de um filme.

Sabe, caro leitor, aqueles filmes em que o realizador, sem meios, atores desconhecidos e um guião muito pobre, tem de fazer "render o peixe"?

Este é o caso dos nossos políticos que, aproveitando o protagonismo de uma adolescente que se tornou viral por todo o mundo, não perde a oportunidade de se lhe colar, pouco preocupado com as questões ambientais, mas muito mais com a notoriedade que tal visita lhes poderá trazer.

Este é o lado cor de rosa, caro leitor!

Depois, temos o dark side, o mundo dos oprimidos, mal tratados, ignorados, espezinhados, usados e gozados. O mundo que é tão bem retratado no fantástico filme de Todd Phillips, Joker.

E você, caro leitor, em que mundo está?

O mundo em que os problemas que se vivem atualmente se esfumam, para se "brincar" ao ativismo, bem patente na carta que o ministro do ambiente português escreveu à ativista “Querida Greta, obrigada pelo teu ativismo"  e largamente alimentado pelos media:

Ou, o mundo real? O do suor! O da lágrima! O da dor! O do desespero de quem é esquecido, tal como retratado no Joker:

Tal como o Joker, face ao mundo em que vivemos, quase duvidamos da nossa própria existência, num sistema cada vez mais falido em que a normalidade é o aceitar da anormalidade.

Afinal, "somos todos palhaços!" como diz o Joker

PS. Fónix! É demais para ser verdade! Afinal quem são os palhaços? Os que aceitam rindo? Os que não têm capacidade para reagir? Os Trump deste mundo, decisores que estão um pouco por todo o lado?

Joker ou Greta, caro leitor?!

Se preferir oiça aqui a crónica:

 

Como (não) se lê na Rede

Vai ler esta crónica?

27
Nov19

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Saímos de manhã cedo, na ânsia de encontrar objetos passíveis de serem fotografados a 3D - a nossa última trend - e na habitual passagem pelas redes, confrontámo-nos com algo que nos tem levado a refletir, isto é, a forma como não se lê na rede.

Se não vejamos, caro leitor... quando partilha ou gosta de um post, em qualquer rede, dá-se ao trabalho de o ler?

Ler é o ato de interpretar o que está escrito, de dar sentidos.

Será que é isso que fazemos na rede? Ou limitamo-nos a colocar gostos em função da pessoa ou instituição que fez a partilha? Ou, ainda, porque uma determinada imagem é apelativa, independentemente do conteúdo que a enforma? Serão as emoções que nos movem?

As redes são potenciais e poderosíssimas fontes de disseminação de informação, mas esta só será útil se a lermos, isto é, se lhe atribuirmos sentidos.

Caro leitor, já pensou nisto? Num mundo que nos foge por entre os dedos, ao invés de nos deleitarmos com aquilo que está escrito ou dito, limitamo-nos a pôr um gosto a determinada pessoa ou a partilhar conteúdos, apenas porque projetam a imagem que queremos que o outro tenha de nós.

Isto, prezado leitor, para não falar do inverso, que daria para uma outra crónica fónix!

Falamos daqueles que veem e leem com atenção posts de qualidade, mas que não partilham, nem gostam, porque acham que estariam a dar protagonismo a outros (pessoas ou instituições) e quebram assim o ciclo da rede, aquele que defendemos, que é partilhar, viver em rede, tornar acessíveis recursos, notícias, reflexões, crónicas verdadeiramente interessantes. Tudo o que nos acrescenta!

De facto, a rede é o espelho de cada um e de todos.

Uns (poucos) vivem plenamente o século em que a partilha e as redes são uma mais valia.

Outros (muitos) passam e estão na rede, sem a viver, isto é, sem a ver. E, para ver, caro leitor, temos de observar, encontrar, escolher, percorrer, provar, conhecer. Em suma, viver.

PS. Os dados estatísticos que as redes nos fornecem são extraordinários, na análise sociológica que nos permitem fazer. Veja-se a título de exemplo: a um post, que linka uma apresentação  que alcança 1200 partilhas e gostos, em apenas 3 dias, correspondem somente 800 visitas ou visualizações efetivas, o que significa que um terço das pessoas partilhou algo que não leu.

Faz pensar, não faz, caro leitor?

 

Verdade 4.0: a era da manipulação

particularidades e evoluções

18
Nov19

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Numa estrada do interior do país, isolados do mundo, sem telefone e, como calculam, desesperados com a inexistência de internet, demos por nós a cogitar sobre os tão apregoados "avanços tecnológicos", presumivelmente criados para nos servir.

E é vê-los a falhar, caro leitor!

A conversa fluiu entre os passageiros do carro que, felizmente, não era elétrico, pois pontos de carregamento nem um, nem mesmo bombas de gasolina. Valeu-nos o carro atestado. Este isolamento conduziu-nos à realidade 1.0, caraterizada por um mundo estático, onde nos limitávamos a observar o que nos rodeava, sem poder interagir, porque não havia com o quê. 

Foi assim que nos sentimos, amigo leitor! Meros observadores.

Os políticos gostavam deste tempo, pois o cidadão era passivo e as suas reações, ainda que existissem, passavam despercebidas.

Fomos avançando na viagem, cada vez mais preocupados com o ponteiro do gasóleo...

Caro leitor, como disse um companheiro de viagem, "ainda bem que o carro é a gasoil, se fosse a gasolina já estávamos à boleia! Como não passa um carro por aqui, nem há telefone, estávamos tramados".

Resolvemos sair da estrada nacional, rumo a uma pequena cidade do interior. Chegados, vimo-nos no mundo 2.0. Já tinhamos rede, apesar da intermitência do sinal, e sentimo-nos parte daquela pequena comunidade. Quiseram saber quem éramos, de onde vínhamos, o que fazíamos.

Enfim, caro leitor, sentimo-nos como os utilizadores da web 2.0 que, sem darem conta, colocavam em risco os seus dados confidenciais.

Não havia multibanco, não aceitavam Visa, porque não gostavam dessas modernices, o MB Way era coisa do outro mundo... e, como só tínhamos 10€, limitámo-nos a tirar o carro da reserva... graças a Deus era a "gasoil".

Tivemos de rumar para o mundo 3.0. Um mundo mais complexo, em que nos compreendiam tão bem como as máquinas - abençoada web semântica, amigo leitor - e em que ninguém se preocupou em saber quem éramos. Aliás, o funcionário do posto de abastecimento passou o tempo a navegar no Facebook e mal nos encarou, apaixonado pelas publicidades escolhidas pelo algoritmo, à sua medida.

É a socieddade do big brother em que o poder nos vigia e sabe a cada instante o que fazemos, o que temos, onde andamos... e com quem interagimos. Tudo isto feito em nome de uma democracia plena.

Uma olhadela pelo escaparate dos jornais levou-nos a imaginar o mundo 4.0! E já que ninguém queria saber de nós - que saudades do interior de Portugal, dolente leitor - não tivemos outro remédio se não o de falar entre nós, o que acabou por se adequar na perfeição à sociedade 4.0, onde o modelo de interação, mais completo e personalizado, é como um espelho mágico que nos dá aquilo que "aparentemente precisamos".

Caro leitor, basicamente, andamos sempre a "comer" o mesmo, pois a inteligência artificial encerra-nos no nosso mundo e só nos mostra aquilo de que gostamos. Fónix! Então agora não podemos experimentar outras coisas?!

Somos apologistas da evolução e acreditamos que a inteligência artificial pode mudar e melhorar radicalmente a nossa vida, através da investigação e do desenvolvimento de novas soluções. Mas custa-nos pensar que somos dominados por conexões que as máquinas analisam à luz das vontades de alguns poderosos que assim NOS manipulam.

Esta nova era, caraterizada pela desinformação e pela manipulação das massas - o tal efeito Trump, caro leitor... já deve ter ouvido falar! - pode levar a sociedade para o abismo. Acreditamos que a educação é o antídoto para um mundo, muitas vezes, "de faz de conta", em que o conhecimento, o espírito crítico, a liberdade de pensamento e a autonomia de atuação de cada um de nós é o bem mais precioso, a preservar.

PS. Retomamos a estrada em silêncio. Estes momentos introspetivos fazem-nos mal. Um silêncio nostálgico tomou conta da viagem. Afinal, não somos mais do que passageiros em trânsito... 

 

 

Faz de conta...

Portugal no reino do faz de conta

02
Nov19

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Numa tarde cinzenta, descíamos a Avenida da Liberdade, quando reparámos que as lojas das marcas de referência estavam cheias de estrangeiros. Comentámos que a classe média portuguesa jamais poderia ser cliente destas lojas, pois um par de sapatos, uma mala, qualquer coisa, custa, facilmente, mais do que o nosso ordenado mínimo. 

Lembrámo-nos dos políticos, da política e, naturalmente, chegámos ao "faz de conta".

Caro leitor, lembra-se das brincadeiras do "faz de conta" de quando era criança?

Tomados pela nostalgia e com uma vontade imensa de irmos gastar o dinheiro que não temos, mesmo recorrendo aos cartões de crédito, vimos logo que só fazendo de conta lá chegaríamos. E, numa de fazer de conta, extrapolámos o faz de conta para este nosso Portugal.

Quer entrar na brincadeira, amigo leitor?

Faz de conta que somos todos iguais! Que, independentemente do partido, da conta bancária, dos amigos, da Família, ou do cargo que desempenhamos, somos todos tratados da mesma forma, seja onde for.

Faz de conta que nos estamos a aproximar dos outros países europeus! Que temos a mesma produtividade, as mesmas reformas, a mesma carga fiscal, o mesmo nível de rendimentos, o acesso tendencialmente gratuito à educação, mesmo no ensino superior.

Faz de conta que nos indignamos e revoltamos sempre que nos mentem, que nos limitam os direitos, que nos fazem promessas que nunca pensaram cumprir.

Faz de conta que temos um bom Serviço Nacional de Saúde! Que em qualquer ponto do país somos atendidos com rapidez e dignidade por profissionais motivados.

Faz de conta que queremos formar os nossos alunos para a cidadania e para o sentido crítico! Que não queremos jovens amorfos, apolíticos e indiferentes.

Faz de conta que a carga horária dos trabalhadores favorece a produtividade! Que quanto maior for a carga horária, maior será a produtividade.

Faz de conta que não estamos a desertificar o interior! Que criamos as condições ao nível dos serviços públicos, saúde, educação, justiça, transportes, de forma a que os portugueses do interior tenham as mesmas condições dos das grandes cidades.

Faz de conta que temos gente impoluta em todos os níveis da administração pública. Que o menor resquício de corrupção é, imediatamente, investigado e severamente punidos os prevaricadores.

Faz de conta que tratamos do ambiente e dos cidadãos. Que não existem casos flagrantes de empresas poluidoras, grandes ou pequenas, que são impedidas de laborar até que as condições de saúde pública sejam restabelecidas.

Faz de conta que todos os profissionais têm o respeito que qualquer cidadão merece. Que os médicos, os professores, os enfermeiros, os motoristas, os assistentes operacionais nas escolas, em suma, todas as classes profissionais têm condições de trabalho dignas e o reconhecimento da sociedade e, sobretudo, do poder político.

Faz de conta que a criminalidade ligeira em Portugal é ínfima. Que a taxa de incidentes tem vindo a diminuir.

Faz de conta que é normal que as empresas que ganham concursos tenham a sede em organismos municipais que, por coincidência, são do partido do governo. Que tudo está bem no poder central e municipal e que o mérito se sobrepõe sempre à lealdade.

PS. Se fôssemos todos crianças a brincar ao faz de conta, estaria tudo bem... mas, caro leitor, infelizmente, não é o caso... e, se não, faça o exercício inverso ao que fizemos nesta crónica, e, em vez de um faz de conta, faça o fact-checking, ou, brinque ao polígrafo. 

Divirta-se, caro leitor.

 

 

Libertem os Livros!

leiam, leiam, leiam

26
Out19

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Seguindo um ritual que nos é familiar - o de percorrer a web à procura de conteúdos interessantes - deparámo-nos com um vídeo cujo título, "Livros em perigo!", nos acordou os sentidos, no meio do imenso palheiro que é a Rede.

Em Rodolfo Castro, o protagonista deste vídeo, descobrimos "o pior dos contadores de histórias do mundo", como ele se diz. E revemo-nos no seu conteúdo, quando é relatado o exemplo de uma bibliotecária que, para levar os alunos a ler, "arriscou... pôs os livros em risco! Mas é só assim." 

Sim, prezado leitor, "é só assim" que promovemos a mudança, arriscando! 

E arriscamos quando:

- levamos os livros aos alunos, ou os alunos aos livros;

- levamos os livros para os sítios mais improváveis;

- alteramos, adequando a novas realidades, as regras que tanto preocupam os responsáveis pelo livros, nomeadamente, os registos infindáveis;

- acabamos com fichas e testes sobre os livros;

- não maçamos as crianças e os jovens com questionamentos inúteis e corriqueiros: "Gostaste do livro? Porquê?" ou "Qual é a personagem principal? Porquê?".

Estes "imperativos" remetem-nos para o que escrevemos na crónica "Socorro! As bibliotecas estão vazias!" que o amigo leitor, certamente, terá lido.

"... ficámos preocupados pela imagem que os jovens têm da biblioteca, que, nas suas palavras, não frequentam, por ser um espaço pouco dinâmico e cheio de regras."

E o que queremos nós, quando sabemos o poder da leitura na criação de leitores críticos e autónomos? Queremos que (se) leiam. Sim, só isso. Então, libertem os Livros! e libertem os leitores para:

- que façam as suas próprias leituras;

- que não gostem daquilo que lhes propomos que leiam;

- que gostem daquilo que não gostamos ou que não achamos aconselhável;

- que se descubram, e

- leiam, leiam, leiam!

Esta reflexão leva-nos a citarmo-nos, uma vez mais, o que nos torna verdadeiramente eruditos, caro leitor, agora, na crónica Ler... Ler... Ler... 

"...a leitura deve ser sempre um ato de prazer e... aquilo que é bom para uns, pode não o ser para outros. O importante é que as crianças e os jovens leiam, sobretudo ficção, pois é esta que desenvolve a capacidade de sonhar, de conhecer novos mundos, que dão azo ao uso da imaginação e alimentam a criatividade. Estas duas características são fundamentais para desenvolver o espírito crítico, a capacidade de comunicação e a empatia pelo outro."

PS. Voltando a Rodolfo Castro, quanto mais tentamos controlar - o que leem as crianças e os jovens, quando e onde - mais os perdemos para aquilo que realmente interessa: que se (re)descubram enquanto leitores.

Intensidades

Fónix! A vida quer-se intensa!

20
Out19

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Estamos sentados na esplanada a olhar para o horizonte. A chuva teima em não parar e somos invadidos por um sentimento forte que nos tolhe os sentidos. Que Intensidade!

Afinal, caro leitor, o que é a Intensidade?

A sabedoria popular dir-nos-ia que Intensidade é o oposto da rotina, da indiferença perante o que nos rodeia. É um abrir de olhos, é um querer saber, é um viver a vida. E nós, Fónix que somos, vivemos em estado permanente de Intensidade.

Se não vejamos.

Intensidade é...

...  quando olhamos para quem amamos e não encontramos palavras para dizer.

... quando nos cruzamos com pessoas que nos cativam com pequenos gestos.

... quando o apito de um comboio rasga o silêncio da noite.

... quando um pôr-do-sol, o voo de uma ave, o recorte de uma árvore espelhada nas águas de um rio nos encantam.

... quando um livro, um filme, um quadro, uma música nos inebriam os sentidos.

... ou, até, quando compramos um gadget que nos enche as medidas.

Isto sim, "intenso" leitor, é Viver!

Mas Viver não é apenas amar, cativar, ecoar, encantar, inebriar.

Intensidade é, também, ...

...quando sabemos que nos querem manipular e parece que mais ninguém se apercebe.

... quando, num debate político, sobressai a falta de caráter e o oportunismo dos intervenientes e os comentadores os classificam como políticos hábeis.

... quando a educação é palco de modas que refletem ideologias políticas e não as reais necessidades da sociedade e dos alunos.

... quando, perante tantas evidência de uma política que não serve as pessoas, caracterizada pela corrupção, apadrinhamento e degradação dos serviços públicos, se vive um silêncio ensurdecedor.

... quando o espaço público está dominado por pseudo especialistas que de tudo falam e nada adiantam.

... ou quando vemos uma sociedade resignada.

PS. Caro leitor, Intensidade é, também, quando concluimos um Fónix que nos enche as medidas.