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Fónix Lab

Laboratório para exprimir (opiniões) admiração, indignação ou impaciência, em torno de temas atuais.

Fónix Lab

Laboratório para exprimir (opiniões) admiração, indignação ou impaciência, em torno de temas atuais.

Verdade 4.0: a era da manipulação

particularidades e evoluções

18
Nov19

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Numa estrada do interior do país, isolados do mundo, sem telefone e, como calculam, desesperados com a inexistência de internet, demos por nós a cogitar sobre os tão apregoados "avanços tecnológicos", presumivelmente criados para nos servir.

E é vê-los a falhar, caro leitor!

A conversa fluiu entre os passageiros do carro que, felizmente, não era elétrico, pois pontos de carregamento nem um, nem mesmo bombas de gasolina. Valeu-nos o carro atestado. Este isolamento conduziu-nos à realidade 1.0, caraterizada por um mundo estático, onde nos limitávamos a observar o que nos rodeava, sem poder interagir, porque não havia com o quê. 

Foi assim que nos sentimos, amigo leitor! Meros observadores.

Os políticos gostavam deste tempo, pois o cidadão era passivo e as suas reações, ainda que existissem, passavam despercebidas.

Fomos avançando na viagem, cada vez mais preocupados com o ponteiro do gasóleo...

Caro leitor, como disse um companheiro de viagem, "ainda bem que o carro é a gasoil, se fosse a gasolina já estávamos à boleia! Como não passa um carro por aqui, nem há telefone, estávamos tramados".

Resolvemos sair da estrada nacional, rumo a uma pequena cidade do interior. Chegados, vimo-nos no mundo 2.0. Já tinhamos rede, apesar da intermitência do sinal, e sentimo-nos parte daquela pequena comunidade. Quiseram saber quem éramos, de onde vínhamos, o que fazíamos.

Enfim, caro leitor, sentimo-nos como os utilizadores da web 2.0 que, sem darem conta, colocavam em risco os seus dados confidenciais.

Não havia multibanco, não aceitavam Visa, porque não gostavam dessas modernices, o MB Way era coisa do outro mundo... e, como só tínhamos 10€, limitámo-nos a tirar o carro da reserva... graças a Deus era a "gasoil".

Tivemos de rumar para o mundo 3.0. Um mundo mais complexo, em que nos compreendiam tão bem como as máquinas - abençoada web semântica, amigo leitor - e em que ninguém se preocupou em saber quem éramos. Aliás, o funcionário do posto de abastecimento passou o tempo a navegar no Facebook e mal nos encarou, apaixonado pelas publicidades escolhidas pelo algoritmo, à sua medida.

É a socieddade do big brother em que o poder nos vigia e sabe a cada instante o que fazemos, o que temos, onde andamos... e com quem interagimos. Tudo isto feito em nome de uma democracia plena.

Uma olhadela pelo escaparate dos jornais levou-nos a imaginar o mundo 4.0! E já que ninguém queria saber de nós - que saudades do interior de Portugal, dolente leitor - não tivemos outro remédio se não o de falar entre nós, o que acabou por se adequar na perfeição à sociedade 4.0, onde o modelo de interação, mais completo e personalizado, é como um espelho mágico que nos dá aquilo que "aparentemente precisamos".

Caro leitor, basicamente, andamos sempre a "comer" o mesmo, pois a inteligência artificial encerra-nos no nosso mundo e só nos mostra aquilo de que gostamos. Fónix! Então agora não podemos experimentar outras coisas?!

Somos apologistas da evolução e acreditamos que a inteligência artificial pode mudar e melhorar radicalmente a nossa vida, através da investigação e do desenvolvimento de novas soluções. Mas custa-nos pensar que somos dominados por conexões que as máquinas analisam à luz das vontades de alguns poderosos que assim NOS manipulam.

Esta nova era, caraterizada pela desinformação e pela manipulação das massas - o tal efeito Trump, caro leitor... já deve ter ouvido falar! - pode levar a sociedade para o abismo. Acreditamos que a educação é o antídoto para um mundo, muitas vezes, "de faz de conta", em que o conhecimento, o espírito crítico, a liberdade de pensamento e a autonomia de atuação de cada um de nós é o bem mais precioso, a preservar.

PS. Retomamos a estrada em silêncio. Estes momentos introspetivos fazem-nos mal. Um silêncio nostálgico tomou conta da viagem. Afinal, não somos mais do que passageiros em trânsito... 

 

 

Faz de conta...

Portugal no reino do faz de conta

02
Nov19

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Numa tarde cinzenta, descíamos a Avenida da Liberdade, quando reparámos que as lojas das marcas de referência estavam cheias de estrangeiros. Comentámos que a classe média portuguesa jamais poderia ser cliente destas lojas, pois um par de sapatos, uma mala, qualquer coisa, custa, facilmente, mais do que o nosso ordenado mínimo. 

Lembrámo-nos dos políticos, da política e, naturalmente, chegámos ao "faz de conta".

Caro leitor, lembra-se das brincadeiras do "faz de conta" de quando era criança?

Tomados pela nostalgia e com uma vontade imensa de irmos gastar o dinheiro que não temos, mesmo recorrendo aos cartões de crédito, vimos logo que só fazendo de conta lá chegaríamos. E, numa de fazer de conta, extrapolámos o faz de conta para este nosso Portugal.

Quer entrar na brincadeira, amigo leitor?

Faz de conta que somos todos iguais! Que, independentemente do partido, da conta bancária, dos amigos, da Família, ou do cargo que desempenhamos, somos todos tratados da mesma forma, seja onde for.

Faz de conta que nos estamos a aproximar dos outros países europeus! Que temos a mesma produtividade, as mesmas reformas, a mesma carga fiscal, o mesmo nível de rendimentos, o acesso tendencialmente gratuito à educação, mesmo no ensino superior.

Faz de conta que nos indignamos e revoltamos sempre que nos mentem, que nos limitam os direitos, que nos fazem promessas que nunca pensaram cumprir.

Faz de conta que temos um bom Serviço Nacional de Saúde! Que em qualquer ponto do país somos atendidos com rapidez e dignidade por profissionais motivados.

Faz de conta que queremos formar os nossos alunos para a cidadania e para o sentido crítico! Que não queremos jovens amorfos, apolíticos e indiferentes.

Faz de conta que a carga horária dos trabalhadores favorece a produtividade! Que quanto maior for a carga horária, maior será a produtividade.

Faz de conta que não estamos a desertificar o interior! Que criamos as condições ao nível dos serviços públicos, saúde, educação, justiça, transportes, de forma a que os portugueses do interior tenham as mesmas condições dos das grandes cidades.

Faz de conta que temos gente impoluta em todos os níveis da administração pública. Que o menor resquício de corrupção é, imediatamente, investigado e severamente punidos os prevaricadores.

Faz de conta que tratamos do ambiente e dos cidadãos. Que não existem casos flagrantes de empresas poluidoras, grandes ou pequenas, que são impedidas de laborar até que as condições de saúde pública sejam restabelecidas.

Faz de conta que todos os profissionais têm o respeito que qualquer cidadão merece. Que os médicos, os professores, os enfermeiros, os motoristas, os assistentes operacionais nas escolas, em suma, todas as classes profissionais têm condições de trabalho dignas e o reconhecimento da sociedade e, sobretudo, do poder político.

Faz de conta que a criminalidade ligeira em Portugal é ínfima. Que a taxa de incidentes tem vindo a diminuir.

Faz de conta que é normal que as empresas que ganham concursos tenham a sede em organismos municipais que, por coincidência, são do partido do governo. Que tudo está bem no poder central e municipal e que o mérito se sobrepõe sempre à lealdade.

PS. Se fôssemos todos crianças a brincar ao faz de conta, estaria tudo bem... mas, caro leitor, infelizmente, não é o caso... e, se não, faça o exercício inverso ao que fizemos nesta crónica, e, em vez de um faz de conta, faça o fact-checking, ou, brinque ao polígrafo. 

Divirta-se, caro leitor.

 

 

Intensidades

Fónix! A vida quer-se intensa!

20
Out19

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Estamos sentados na esplanada a olhar para o horizonte. A chuva teima em não parar e somos invadidos por um sentimento forte que nos tolhe os sentidos. Que Intensidade!

Afinal, caro leitor, o que é a Intensidade?

A sabedoria popular dir-nos-ia que Intensidade é o oposto da rotina, da indiferença perante o que nos rodeia. É um abrir de olhos, é um querer saber, é um viver a vida. E nós, Fónix que somos, vivemos em estado permanente de Intensidade.

Se não vejamos.

Intensidade é...

...  quando olhamos para quem amamos e não encontramos palavras para dizer.

... quando nos cruzamos com pessoas que nos cativam com pequenos gestos.

... quando o apito de um comboio rasga o silêncio da noite.

... quando um pôr-do-sol, o voo de uma ave, o recorte de uma árvore espelhada nas águas de um rio nos encantam.

... quando um livro, um filme, um quadro, uma música nos inebriam os sentidos.

... ou, até, quando compramos um gadget que nos enche as medidas.

Isto sim, "intenso" leitor, é Viver!

Mas Viver não é apenas amar, cativar, ecoar, encantar, inebriar.

Intensidade é, também, ...

...quando sabemos que nos querem manipular e parece que mais ninguém se apercebe.

... quando, num debate político, sobressai a falta de caráter e o oportunismo dos intervenientes e os comentadores os classificam como políticos hábeis.

... quando a educação é palco de modas que refletem ideologias políticas e não as reais necessidades da sociedade e dos alunos.

... quando, perante tantas evidência de uma política que não serve as pessoas, caracterizada pela corrupção, apadrinhamento e degradação dos serviços públicos, se vive um silêncio ensurdecedor.

... quando o espaço público está dominado por pseudo especialistas que de tudo falam e nada adiantam.

... ou quando vemos uma sociedade resignada.

PS. Caro leitor, Intensidade é, também, quando concluimos um Fónix que nos enche as medidas.

 

 

Portugal: um silêncio ensurdecedor

Estará o povo português adormecido?

19
Out19

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"Le cri" de Munch, interpretado por Danièle Mengual

As manifestações populares, envolvendo milhares de pessoas que exercem o seu direito de cidadania, na Catalunha e em Londres, encabeçam os títulos da imprensa. Parece que a Europa está viva e responde na rua ao que os políticos, não conseguem, isto é, defender os interesses dos povos.

Caro leitor, os políticos não conseguem ou não querem?

Depois, olhamos para um cantinho, no extremo ocidental do continente, e, com o olhar tranquilo sobre o oceano Atlântico, naquele que é chamado o jardim à beira-mar plantado... está tudo parado, adormecido. 

Um observador distraído poderia pensar que por aqui está tudo bem. Mas basta folhear os jornais, navegar pelas redes sociais, ou ligar a TV para perceber que muitas razões existem para que os portugueses se mobilizem e exerçam o tão apregoado direito à cidadania, isto é, que lutem pelos seus direitos.

Ler os Media, por estes dias, em Portugal, deixa qualquer um estupefacto. E o esclarecido leitor não será certamente exceção.

Os casos sucedem-se, em todas as áreas, sem consequências para os prevaricadores, mostrando instituições tomadas por um modelo taylorista em que o que se pretende é a reprodução de comportamentos consentâneos com os interesses dos políticos e não com os do povo que deviam servir. Isto constata-se ao mais alto nível e, na cadeia hierárquica, parece que as pessoas são escolhidas a dedo para serem meros funcionários, reprodutores de um padrão que a todos incomoda, mas que todos aceitam, num silêncio ensurdecedor.

Caro leitor, o que será preciso para acabar de vez com interpretações de leis feitas a gosto, com programas suspendidos quando dá jeito, com altos funcionários que tratam o povo como ignorante, disfarçando ações com explicações como "não disse porque não me perguntaram...", "não sabia, não tive conhecimento", "segui os procedimentos...". A lista não tem fim, caro leitor... Assim fossem tão criativos a governar como a inventar desculpas...

A sociedade tem, objetivamente, cada vez mais problemas. As instituições degradam-se. Isto é inegável. Atente-se na saúde, na justiça, na educação e até nos transportes. 

Vejamos alguns títulos nos Media, por estes dias:

  • "Governantes em negócios de oliveiras milionárias";
  • "Caos nas escolas com falta de pessoal";
  • "Só há 5 hospitais com resultados positivos";
  • "Urgência pediátrica do hospital Garcia de Orta volta a encerrar no fim de semana";
  • "Falta de funcionários encerrou hoje 9 das 10 escolas...";
  • "Falta de professores deixa milhares de alunos sem aulas";
  • Falta de professores e alunos sem solução: o que está a acontecer nas escolas?";
  • "Ministro do Ambiente foi avisado sobre alegadas ilegalidades na concessão do lítio...";
  • "Há novas suspeitas no negócio do lítio";
  • "Ex-governante assume papel relevante no avanço da mina de lítio...";
  • "Portugal é dos países mais corruptos da União Europeia";
  • "Relatório internacional: Portugal volta a fazer má figura na prevenção da corrupção";
  • Atrasos nos tribunais devem levar à libertação de arguidos";
  • "Presidente do Supremo Tribunal Administrativo denuncia estrangulamento dos tribunais administrativos";
  • "Queixas da utilização de transportes públicos aumentam";
  • "Passe metropolitano gerou caos nos transportes...".

E ficamo-nos por estas, caro leitor.

Como se isto não bastasse, a carga fiscal é avassaladora e a classe média subsiste com dificuldade, para não falar do risco de pobreza, que atinge 17,3% dos residentes em Portugal.

PS. Quanto mais olhamos para os factos, que são tão evidentes, no que diz respeito à corrupção, ao apadrinhamento, à degradação dos serviços públicos, mais alarmados ficamos.... estará o povo português adormecido? Que tsunami  terá de atingir este cantinho da Europa para provocar uma reação? 

 

by influenciadores | work in progress

A manipulação dos Media

A Era da DesInformação: Relatório da Universidade de Oxford

28
Set19

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Em época de campanha eleitoral, em que casos e notícias estapafúrdias inundam os Media, deparámo-nos com uma notícia sobre um relatório da Universidade de Oxford que investigou a forma como a propaganda cibernética se converteu numa ferramenta de manipulação.

Caro leitor, mortos de curiosidade, fomos saber mais.

O relatório, intitulado "The Global Disinformation Order: 2019 Global Inventory of Organised Social Media Manipulation", analisa 70 países e conclui que, destes, 56, ou seja 80%, utilizam os Media, sobretudo o Facebook, para propaganda política, sendo que é esta a rede predileta para a manipulação dos cidadãos.

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Caro leitor, convenhamos... é óbvia a escolha do Facebook, pois é esta a plataforma social com mais utilizadores (2 410 milhões de utilizadores mensais, de acordo com dados do próprio Facebook). Em cada um dos 70 países, pelo menos um partido político ou uma agência governamental usa os Media para moldar a opinião pública.

Em 26 países, sobretudo nos regimes mais autoritários, a propaganda cibernética é utilizada como ferramenta de controlo de informação, com três objetivos principais:

1º Suprimir direitos humanos fundamentais;

2º Desacreditar os opositores políticos; 

3º Abafar opiniões divergentes.

Assustador, não é caro leitor? Agora imagine a utilização cada vez mais eficaz da Inteligência Artificial, da Realidade Virtual e da Internet das Coisas para moldar a sociedade e as políticas. Que grandes desafios se colocam à nossa democracia!

O estudo alerta, também, para as campanhas de desinformação que são cada vez mais usuais, sobretudo através do WhatsApp. Dados relativos a grandes players mundiais, como a China, apontam para uma utilização agressiva do Facebook, Twitter e Youtube para manipular a opinião pública e influenciar uma audiência cada vez mais global.

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Preocupa-nos que uma das conclusões deste estudo seja o aumento previsível da utilização dos Media para a comunicação política.

Mas, amigo leitor, se a comunicação política tem subjacente a manipulação das massas, não deve isto tirar-nos o sono?

Qual o impacto que terão os Media na sociedade? Serão um espaço público para a democracia, ou, pelo contrário, servirão apenas para amplificar conteúdos que mantêm os cidadãos viciados, mal informados e irritados?!

PS. Não podemos terminar sem citar uma das consequências apresentadas no relatório. Os Media, que já foram considerados um exemplo de liberdade e democracia, são hoje, cada vez mais, o rosto de uma sociedade desinformada, o que contribui para o aumento da violência e para uma desconfiança generalizada nos Media e nas próprias instituições democráticas.

Fónix! Palavras para quê?!

 

by influenciadores | work in progress

 

Fónix! Então já não é preciso ter um curso superior?

A era da desinformação e a importância do Conhecimento

23
Set19

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O dia hoje não começou bem!

A consulta habitual das redes sociais, ainda no lusco-fusco, em busca das últimas notícias, deixou-nos atónitos! 

Já não bastavam as fake news (já não se pode ouvir falar deste "bicho papão"), para agora aparecerem os fake books!

Caro leitor, que delícia para os ativistas militantes! Já devem estar a esfregar as mãos!

No início, nem percebemos bem o que poderia ser isto! Mas, uma leitura mais atenta do artigo, mostrou-nos que os livros falsos são inclusivamente vendidos pela maior empresa online de distribuição de livros, a Amazon.

Que mais fakes aparecerão para abalar o nosso mundo, amigo leitor? Vivíamos tão bem com as imitações de roupa e malas de marca que comprávamos nas feiras!

Ainda abalados pela notícia da Amazon, aparecem-nos outros grandes players, em grandes parangonas e em vários media: "Google, Apple e IBM já não pedem diploma universitário nas suas vagas de emprego".

O quê!!? O quê!!?

Relemos e voltamos a ler o título! Não havia dúvidas! E andamos nós a hipotecar-nos para pagar o "cursinho" superior aos nossos filhos! 

Com estas novidades a martelarem-nos o cérebro, decidimos desabafar nesta crónica, mas a discussão em torno dos verbos "ter" ou "tirar" fez-nos divergir. 

Afinal, caro leitor, os cursos têm-se ou tiram-se?

Vejamos... uns tiram o curso, outros compram o curso, mas ainda há aqueles a quem lhes tiram o curso que tinham. Tinham... mas nunca tiraram...

Que confusão, gentil leitor...

Afinal vivemos no mundo em que tudo pode ser fake.

PS. A educação é fundamental, agora mais do que nunca, para fazer face a esta era da desinformação em que a vantagem social, cultural e até financeira está no conhecimento. Cabe à escola educar os alunos para os Media, para que possam, de forma crítica, validar fontes de informação. É esta capacidade que faz e fará cada vez mais a diferença no mundo do trabalho e na sociedade.

 

iWatch, iWatch meu, diz-me... quem tem melhor desempenho do que eu?

20
Set19

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O despertador toca às 8h.

Hoje não há preguiça. Temos de estar às 10h em ponto à porta da FNAC para sermos os primeiros a comprar o tão desejado relógio da Apple, ou, como familiarmente lhe chamamos, iWatch.

Como poderíamos não estar entusiasmados? Parece que o novo device é tão inteligente que, em caso de ataque cardíaco e até de uma queda grave, liga para o 112.

Já imaginou, caro leitor, o poder de um simples relógio?

Claro que isto nos criou algumas fantasias que nos assaltaram o espírito e nos levaram a divagações extraordinárias.

É óbvio que as funcionalidades deste novo aparelho são brilhantes e dignas de reparo. Se não vejamos: mede a nossa frequência cardíaca, com emissão de um relatório que podemos encaminhar para o médico de família; gere o período menstrual, o exercício físico, o nível de ruído, já para não falar no facto de ser cada vez mais uma réplica do iPhone. 

Mas, e se fôssemos mais atrevidos? Poderíamos chegar mesmo ao "iWatch, iWatch meu, diz-me... quem tem melhor desempenho do que eu?"

Já imaginamos os concursos em rede, as conversas entre colegas, a mostrarem os respetivos scores.

O nível de álcool consumido, a percentagem de gordura corporal, a atividade mental, física e sexual, por exemplo, e seria vê-los (ou como se diz agora... vê-los e vê-las, pedimos desculpa se esta não for a ordem correta)  a vangloriarem-se por fazerem a alimentação mais saudável ou, entre amigos, a compararem desempenhos sexuais, ou até o nível de poluição existente no bairro de cada um.

Já imaginou, caro leitor? Um sonho, um pesadelo ou uma inevitabilidade?

PS. As portas abriram-se, deixámo-nos de divagações e apressámos o passo. Queríamos ter a certeza que garantíamos a aquisição do tão desejado Apple Watch. 

 

Falar para não estar calado

Os portugueses e os chavões

01
Set19

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Questionamo-nos, frequentemente, sobre a necessidade absurda que as pessoas têm de estarem sempre a falar, mesmo que seja para dizer coisa nenhuma. E aborrece-nos, sobretudo, quando utlizam os conhecidos chavões, frases feitas... pior, ainda, quando os utilizam para "rematar" uma conversa que tinha tudo para ser interessante.

Se não vejamos, caro leitor...

Será que esta nossa típica expressão "se não" já se está a transformar, ela própria, num chavão?

Vejamos alguns exemplos.

No restaurante, lá vem o funcionário oferecer uma entrada, que nos vai custar "os olhos da cara" (chavão!), para "abrir com chave de ouro" (chavão!). Para não falar da sobremesa e terminar com a mesma chave.

Na rua, encontramos um conhecido, que nos responde, invariavelmente, que "vai indo" (chavão!), independentemente do seu estado de espírito.

Em viagem, com o cônjuge, quando perguntamos o quer quer fazer, diz sempre "o que tu quiseres" (chavão!), para depois se iniciar uma discussão sobre o que escolhemos que não correspondeu às suas expetativas. Aqui é caso para utilizar o chavão "eu bem te disse!"

Na loja, quando experimentamos uma peça de roupa, que até uma criança vê que nos fica mal, e o empregado, com ar de entendido, nos diz "cai-lhe que nem uma luva" (chavão!).

Em contexto laboral, quando se tenta implementar algo de novo, como por exemplo utilizar uma nova ferramenta, que funciona exatamente da mesma forma que a anterior, para não dizer que é até mais fácil de usar, e nos olham com receio, dizendo, com algum desespero, "precisamos de formação" (chavão!). 

No pub, enquanto se assiste a um jogo de futebol e se bebe uma cerveja, e, no fim do jogo, um cliente remata a conversa com um "aconteceu futebol!" (chavão!) e outro, cujo clube perdeu, responde "voltamos à estaca zero" (chavão!).

Caro leitor, é caso para usar o chavão "o silêncio é de ouro".

Vivemos numa sociedade em que as pessoas estão a perder a capacidade de ser e estar... de sermos nós próprios, aceitando o que nos caracteriza e mostrando empatia pelo outro... de estarmos sem preconceitos, sem receio de sermos mal vistos ou interpretados. Mesmo que isso implique estar em silêncio.

PS. Converse, sem filtros sociais. Assuma as suas convicções e aceite que pensem de forma diferente. É nesta diferença que se criam novos patamares de entendimento. E, por favor, evite chavões.

 

by influenciadores | work in progress

A tecnologia, parceira ou adversária?

Onde? Quando? Com quem? E como quiser!

30
Ago19

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Numa roda de amigos, demos connosco a falar dos filhos que alguns têm a estudar longe, mercê do facto de não terem tido vaga na universidade portuguesa. Uns lastimavam-se pela distância, outros contrapunham, dizendo que, de avião, estavam a poucas horas e, para nosso espanto, um casal  acrescentou que, apesar da distância, todos os dias se ligavam, via Skype, com a sua filha a estudar no estrangeiro e jantavam "virtualmente".

Esta conversa levou-nos a pensar no medo que a tecnologia suscita, por se achar que cria um fosso tremendo nas relações humanas, e recordámos o tempo em que os filhos estavam fechados nos quartos "ligados ao ecrã", só saindo para comer, após vários gritos ou um SMS ameaçador, enviado pelos pais e, quase sempre, sob ameaça de lhes tirarem o computador.

De facto, os tempos são outros e a tecnologia existe para nos servir. Muito se fala dos seus malefícios. Esquecemo-nos, frequentemente, que ela, como todas as criações humanas, tem o seu lado bom e mau, consoante o uso e o fim que lhe damos. Sempre foi assim com qualquer artefacto humano.

Sim, mas o toque humano é fundamental, dirá o nosso leitor.

As relações humanas vivem desse "estar com o outro", mas, face à mobilidade que caracteriza o nosso tempo, quer falemos dos estudos, quer da vida profissional e social, a existência da tecnologia permite-nos estar, partilhar e viver em sintonia com os outros, quando a situação que vivemos não nos permite o tal toque. Basta um clique.

A tecnologia pode, contudo, transformar-se numa adversária, quando não a sabemos usar. Quando se torna uma dependência que nos afasta do outro, da vida. Quando nos desencaminha. Quando não estamos preparados para aquilo que encontramos na Web e não processamos a informação com espírito crítico. Quando não cuidamos da nossa reputação e descuidamos a privacidade.

Bem estão os que a sabem usar em seu benefício, com conta, peso e medida. Independentemente da forma como a utilizamos, o facto é que a tecnologia marca todos os aspectos da nossa vida: como trabalhamos, como estudamos, como amamos, como nos relacionamos, como nos divertimos.

Caro leitor, ainda se lembra do martírio que era pedir uma certidão de nascimento? Renovar o bilhete de identidade, fazer qualquer transação bancária? Ainda é desse tempo? 

Indelevelmente, o mundo está a mudar. A tecnologia derrubou obstáculos, aproximou as pessoas, universalizou o acesso ao conhecimento. Se olharmos para trás, já não seremos capazes de nos imaginar sem  este mundo dominado pela inovação constante, pelo prazer de descobrir novas formas de viver. Porque, quer queiramos, quer não, vivemos de forma muito diferente.

PS.  Entrámos no carro e os olhos dirigiram-se para o ecrã à nossa frente, vimos as condições do trânsito, o melhor percurso e a hora de chegada. No banco de trás, já se criava um grupo no FaceTime para se saberem novidades da família, a todo o momento.

 

 

by influenciadores | work in progress

Os Insatisfeitos

Season I - Os veraneantes | Só estou bem aonde não estou

19
Ago19

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O lançamento do novo filme de João Maia, "Variações" (dia 22, quinta-feira), e a observação das pessoas que povoam o sul do país neste período de férias, leva-nos a dissertar sobre uma nova categoria humana. Os Insatisfeitos, tão bem representados por António Variações, ao longo da sua vida, sempre em busca do que não tinha, aliás como ele faz notar na canção "Estou além", que poderá ver e ouvir no final desta crónica.

Esta busca incessante faz-nos lembrar o ritual dos veraneantes, ao início da manhã e ao final da tarde, que, em fila, vão e vêm da praia, com ar infeliz, carregado e carregados! Com chapéus, chapéus de sol, cadeiras, geleiras, sacos de toalhas, filhos pela mão, cães pela trela e a sogra atrás. Fónix, que cansaço!

Para não falar já da trabalheira para estacionar o carro, sempre que a família exige um passeio a uma praia, a um restaurante, a um miradouro, ou uma festa popular, onde se podem tirar umas fotos à maneira, que comprovem a nossa passagem por ali. Como se isto não bastasse, chegados ao local onde estamos alojados, inicia-se uma nova luta, encontrar a tão desejada sombrinha para o veículo. Apetece ir de férias?!

Já passou por isto, caro leitor?

O que nos move, ano após ano, a seguir este ritual? Será que só estamos bem onde não estamos? Esta condição de insatisfação levar-nos-á a passar por isto?

PS. Chegados a casa, pomos o nosso melhor sorriso, condicente com o bronzeado, e vendemos a ideia de umas férias paradisíacas e prazerosas. O que condiz com as fotos tiradas a preceito e divulgadas em todas as redes sociais em que estamos presentes. Que grandes férias! Fónix, que saudades!

 

 

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