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Fónix Lab

Laboratório para exprimir (opiniões) admiração, indignação ou impaciência, em torno de temas atuais.

Fónix Lab

Laboratório para exprimir (opiniões) admiração, indignação ou impaciência, em torno de temas atuais.

A praia em tempo de Covid

Está tudo bem!?

11
Ago20

Apesar de não sermos muito amantes da praia, ontem resolvemos madrugar e descer até à praia algarvia, onde estamos por estes dias. 

E que agradável surpresa, três ou quatro pessoas povoavam aquele extenso areal de areia branca. A manhã estava soberba, corria uma brisa que encantava o corpo e se nos espelhava na alma. 

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Hoje deu-nos para isto, caro leitor. Mas continuemos.

O mar sorria-nos e não nos saía da cabeça a notícia, reiterada pelos media, de que a água andava quente.

Atrevidos, confiantes, pusemos o pé na água... olhámos um para o outro e dissemos "isto é que é estar quente?"

A água estava gelada, amigo leitor!

Apesar do frio que nos tolhia, não desistimos. Hoje, temos que ser resilientes, se não somos fracos e, por isso, mergulhámos.

Revigorados, voltámos ao areal. À nossa volta não havia ninguém. Estranhámos. Gostámos.

De repente, eis que aparece um casal que se instala em cima de nós e à esquerda e à direita e o homem das bolas de berlim e os vendedores de colares que ajoelham na nossa toalha... Que calor! Que multidão! Que barulheira!

E o Covid? E o distanciamento social?

Pois, devia era ser físico... isso sim, caro leitor. 

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Vencidos fugimos para casa.

No caminho, centenas de veraneantes cruzavam-se connosco sem qualquer respeito pelo distanciamento físico ou social... a pandemia vai-se esquecendo, já está tudo bem.

 

PS. Esperemos que o fim das férias não traga más notícias, mas consola-nos saber que estas serão as que mais convirem, ou não vivessemos nós na era da manipulação informativa.

E não manipula quem quer.

 

Estaremos prisioneiros dos algoritmos ou das notícias falsas?

Velhas crenças servem a desinformação

08
Ago20

A Web é um mundo sem fim.

De férias, a fazer o que fazemos todos os dias, deparámo-nos com uma entrevista a Roger Chartier, um dos mais conceituados historiadores franceses, especialista na história do livro.

Apaixonados por este tema, a leitura do artigo depressa suscitou uma animada discussão no grupo de amigos. Acabámos a questionar algumas das afirmações que faz.

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Afirma Roger Chartier:

1. A pandemia exacerbou novas práticas de leitura impostas por algoritmos que aceitamos sem questionar. 

Independentemente do digital ou não, hoje, como ontem, a boa prática é, foi sempre, o questionar. Por causa de uma pandemia ou não, o algoritmo está aí e vai-nos acompanhar ao longo da vida. Temos que o saber para compreendermos os critérios de publicação e para nos sabermos defender. A escola  tem aqui um papel importante a desempenhar.

Sem dramas. O mundo, a tecnologia, o homem, a vida mudam. O homem adapta-se e aprende. 

Que pensa o caro leitor?

 

2. As redes sociais dão uma força inédita aos riscos que ameaçam a verdade e a democracia.

É verdade. As redes sociais põem em pé de igualdade (relativamente) o especialista e o homem comum. Mas não é também verdade que assistimos ao fim das elites e que a própria ciência muda a uma velocidade nunca vista? Atente-se no caso do uso ou não da máscara durante a pandemia e na multiplicidade de afirmações dos especialistas.

Não estarão aqueles com mais acesso aos órgãos de informação, mais ao serviço da política do que da ciência?

O que é preciso, caro leitor, é que pensemos, ouçamos os outros, com civilidade e sejamos cidadãos críticos para sermos esclarecidos.

 As redes sociais podem dar, e se calhar dão, uma força inédita ao erro, ao engano, à ignorância, contudo, quando bem usadas, educam, formam como suporte nenhum criado pelo homem, até hoje, foi capaz de fazer.

 

3. É necessário redefinir a noção de cultura, sobretudo se tivermos em conta que as práticas cultuais dominantes dos jovens, entre os 15 e os 24 anos, passam pelo consumo diário de vídeos online.

O autor vai mais longe e pede um esforço coletivo, político e social, para salvaguardar o mundo que não queremos perder. 

Como se fosse possível suster a mudança, amigo leitor. Em tempo algum da história da humanidade isto se revelou possível, atrevemo-nos até a dizer, desejável.

 

4. Na lógica da cultura impressa, o leitor encontra o que não procura. Na lógica da cultura digital, manda o algoritmo, a leitura é acelerada, impaciente e fragmentada.

Será este o tópico de discussão mais adequado, amável leitor? Que lhe parece?

O que mudou foram os hábitos de leitura e os canais onde se lê. Lemos cada vez mais e de forma mais seletiva. Um romance em suporte papel ou digital lê-se da mesma forma, com a mesma intensidade. Um artigo científico lê-se da mesma maneira, ainda que o suporte digital permita fazer pesquisas e acrescentar significados de forma mais fácil e rápida.

 

PS. A capacidade de analisar, de ler de forma refletida o mundo é cada vez mais premente, devendo ser uma das grandes metas dos sistemas educativos, para que os jovens questionem o que leem, mesmo quando dito por personalidades de renome. 

Concorda, caro leitor?

A saga para comprar um caderno pautado

Que mundo é este?

07
Ago20

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Caro leitor, já tinhamos saudades suas. De si, das férias, destes momentos.

E como aspirantes a influenciadores, nascidos noutros tempos, sentimos a necessidade do papel, da usabilidade que só um simples caderninho de linhas nos proporciona!

Começou assim a nossa aventura em terras algarvias, em 2020, bem diferente, se bem se lembram, da do verão de 2019, marcada pela impossibilidade de abastecer o pópó.

Felizes da vida, cheios de ideias, mortinhos por as fixar no papel, dirigimo-nos à primeira tabacaria que encontrámos e não imaginam o ar de espanto do senhor que nos atendeu. Simpático, mas um tanto surpreendidos disse-nos que já não havia procura que justificasse tê-los e que o mais seguro seria "irmos a um chinês" que ficava a umas dezenas de metros. 

Chegados ao "chinês" e ávidos por ter o caderno nas mãos, pedimos ajuda à empregada. Solicita disse-nos que ainda "havia um restinho".

Pois é caro leitor... mas era um restinho de cadernos de desenho cheios de pó.

Não tivemos outro remédio senão recorrer ao digital, apple pencil e iPad, para fixar as ideias que tinhamos medo de perder.

Esta situação inusitada levantou-nos questões que queremos partilhar com o amável e paciente leitor.

  • Fará sentido questionarmo-nos ainda sobre a inevitabilidade do digital?
  • Fará sentido organizar congressos, estudos, investigações aprofundadas sobre os benefícios e malefícios do digital? Não será uma perda de tempo e de recursos financeiros?
  • Não será melhor abraçar o digital de uma vez por todas? 

O que pensa, caro leitor?

 

PS. Já tinhamos saudades de testar a sua paciência. Já sabe que os seus comentários são sempre bem vindos no fim de cada post. Prometemos pensar consigo, não para lhe dar respostas, que provavelmente não temos, mas para nos inquietarmos.

 

Pode ouvir aqui a crónica em podcast

O triunfo da mediocridade

O estado da arte da literacia política em Portugal

26
Fev20

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É sabido que o mundo em que vivemos exige multiliteracias.

É sabido que a escola deve desenvolver estas competências nos seus alunos.

É sabido que para cada problemática da sociedade se cria uma nova literacia.

Mas, caro leitor, já parou para pensar que ninguém fala da literacia política?

Esta conversa, num grupo de amigos, levou-nos a uma leitura que fizemos de um artigo no La Vanguardia em que o Nobel da Economia, Paul Krugman, reflete sobre a crise da verdade e aquilo a que nós, Fónixlab, gostamos de chamar iliteracia política. De facto, tal como nos diz este economista, hoje triunfam os piores, pois as pessoas não se importam com as mentiras, aliás gostam de acreditar no que lhes é mais conveniente. E, inúmeras vezes, são as "mentiras de estado" que interessam a pessoas "políticamente estúpidas." Mas “Si las personas son políticamente estúpidas es porque hay gente muy interesada en matenerlas así".

Caro leitor, não concorda com Paul Krugman, quando diz que a honestidade é uma virtude que parece ter desaparecido da vida pública?

Inúmeras são as personalidades que apontam o dedo a esta forma de fazer política, de que é exemplo Lídia Jorge que, num artigo publicado no Público de 23 de fevereiro de 2020, refere que "É preciso criar um estado de alarme". O que está em linha com o que diz Paul Krugman que defende a necessidade de os especialistas alterarem a sua forma de comunicar, deixando de fingir que estão a manter discussões honradas e sinceras.  

Lídia Jorge lança, ainda, um desafio direto aos intelectuais, aos professores, aos jornalistas, pedindo-lhes “uma atitude de resistência” e que criem “um estado de alarme” que acorde as consciências.

Não resistimos a repetir aqui o que diz Lídia Jorge e que espelha bem o mundo imoral em que vivemos: "Para quê ter dez, 30, 60 milhões de euros? Não consigo compreender. Sobretudo quando isso significa um desequilíbrio social tão grande. É inadmissível. Mas não há nome para essa doença, os escritores vão ter de inventar."

E nós caro leitor? O cidadão comum o que está disposto a fazer para mudar este estado de coisas?

Sabemos que a educação e a cultura são cada vez mais importantes para fomentar um estado de verdade. Mas para isso os media, que têm o domínio total naquilo que cada um de nós pensa, devem reger-se pelos factos e pela verdade e não pela necessidade absurda de ter audiências e, infelizmente, muitas vezes, serem submissos aos poderes instituídos!

Gritemos!

Escrevamos!

Manifestemo-nos!

Insurjamo-nos! 

Deixem os professores ensinar! Os jornalistas informar! As pessoas falar! Revoltemo-nos contra o triunfo da mediocridade!

PS. Um pouco acelerados, com o coração em sobressalto, tal como acontece sempre que refletimos sobre estas coisas, olhamos para o verde que nos rodeia e pensamos que tínhamos tudo para sermos e estarmos, TODOS, bem melhor! 

Que pena caro leitor!...

Se preferir oiça aqui o podcast:

Os melhores do Mundo

Ao sabor dos números

12
Jan20

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Restabelecidos das festas e festejos, muitas delas pela obrigação que o calendário impõe e que nos impossibilitaram de fazer aquilo de que tanto gostamos e em que somos os melhores do Mundo (decerto nos perdoará, caro leitor), aqui estamos:
 
Ano novo, (mas) Vida (continua) velha.
 
Por muito que a esperança seja a última a morrer, quando paramos para pensar no mundo que nos rodeia, em que nos vendem como os melhores do mundo, toma-nos uma indignação surda. 
 
Caro leitor, já tínhamos saudades suas, ou não fosse o melhor leitor do mundo!...
 
Portugal tem uma das melhores localizações geográficas para a vida humana. 
Sabemos que os nossos profissionais (militares, políticos, professores, médicos, enfermeiros, gestores, engenheiros, investigadores, cientistas, gestores, futebolistas, treinadores...) são dos melhores do Mundo.
 
Esta último categoria é digna de parentêses caro leitor. Já tínhamos o "Special one", devidamente condecorado com a ordem do Infante D. Henrique, agora temos mais um... O Infante D. Henrique começa a não chegar para as (en)comendas.
 
E não podemos esquecer as artes, a literatura, o cinema, o teatro, a música, a arquitetura, as tradições, a bebida, o azeite, o mel, a comida... o pão de milho, o pastel de nata, a alheira, o presunto, o queijinho...
 
Fónix, já estamos com fome!
 
Em suma somos os melhores do Mundo! Mas não paramos por aqui.
 
Temos, também, o melhor ministro das finanças da Europa, arriscamos até a dizer o melhor do mundo! Aquele que criou a maior carga fiscal de sempre, por via de taxas, taxinhas... o cativador mor...
 
Temos, também, um dos maiores governos de sempre e dos maiores do continente europeu. E, como sabemos que quantidade não é sinónimo de qualidade, fica tudo dito.
 
Sabia, caro leitor, que a média na Europa é de 16,5 ministros e Portugal tem 19? Este novo governo tem o maior número de ministérios desde 1976.
 
Somos o 5.º país da Europa com salários mais baixos e o 3.º pior da União Europeia, se tivermos em conta o poder de compra. Atrás de nós, só a Eslováquia e a Hungria.
 
Mas somos, continuamos a ser, todos os dias, os melhores do Mundo!
 
Os portugueses pagam mais do próprio bolso para a saúde do que os restantes europeus, porque o Serviço Nacional de Saúde tem um nível “elevado” de despesas não reembolsadas. 
 
Os professores portugueses são os mais velhos de entre os países da OCDE, que refere que só 1% dos professores em Portugal tem menos de 30 anos (que contrasta com uma média europeia de 11%).
 
E os números continuam, caro leitor!
 
Apesar de preferirmos as letras aos números, somos inundados, diariamente, por números que são trabalhados com o fim que se lhes pretende dar, veja-se o caso do excedente orçamental.
 

 Contudo, Portugal mantém-se como o terceiro país da Europa com o maior rácio de dívida pública, a seguir à Grécia e à Itália. 

De acordo com a organização Transparência Internacional, que avaliou 180 países e territórios, Portugal ocupa uma honrosa 30ª posição, no que respeita à corrupção. O Conselho da Europa diz, ainda, que Portugal é o país que menos cumpre recomendações contra a corrupção.

Os parlamentares de Portugal - os melhores do Mundo -  ganham, por ano, mais do dobro do salário médio anual do país, ao contrário dos políticos de muitos países, por exemplo o dos espanhóis que ganham uma quantia idêntica à média do salário do país, de acordo com o relatório MSN MONEY (2019).

PS. Pois é, magnífico leitor, tudo na mesma, num país que muitas vezes parece de "faz de conta". Continuamos a deixarmo-nos adormecer ao som desta canção de embalar que os políticos tão bem dominam e que se poderia intitular "Números para cidadão dormir".

Se preferir, oiça o podcast:

A emergência da leitura

Aprender a ler, para ler o Mundo (PISA, 2019)

15
Dez19

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Clique na imagem para ver o infográfico

Na semana em que saíram os resultados do PISA, ficámos confusos perante a discrepância das notícias. Como é possível ler e inferir conclusões diferentes de um mesmo relatório? Afinal a escola que temos construído permite aos jovens desenvolver as competências que as políticas educativas por todo o Mundo consideram cruciais?

Parece-nos claro que, de uma forma geral, os media se preocuparam em polarizar o lugar que cada país ocupa no ranking, sem refletirem sobre o impacto que estes resultados deveriam ter nas políticas educativas europeias e mundiais.

Caro leitor, sabemos que a economia, assente no capital humano, se preocupa com estes rankings, mas será que os resultados obtidos são o retrato fiel do que sabem os alunos de cada país?

Alguns especialistas, um pouco por todo o Mundo, chamaram a atenção para a heterogeneidade dos países participantes e para a tremenda diferença que existe entre os diversos sistemas educativos. Não esqueçamos, ainda, a manipulação de dados, quer na fonte, com a seleção criteriosa das escolas e dos alunos que responderam aos questionários, quer centralmente, veja-se o caso de Espanha.

Os sociólogos que se debruçaram sobre estes resultados refletem, sobretudo, acerca das desigualdades que caracterizam os sistemas educativos, sendo clara a relação que existe entre os bons resultados no PISA e a valorização, pela sociedade, da escola, do ensino e dos professores. Não é tanto uma questão de melhores condições de trabalho e remuneratórias, mas sim de cultura.

Alguns analistas, como Maxime Tandonnet, alertam, também, para o perigo de se terem passado décadas e décadas a nivelar a qualidade do ensino por baixo e chamam a atenção para os perigos daí decorrentes.

De facto, é extraordinariamente preocupante que um em cada 10 alunos não distinga factos de opiniões, apesar de esta ser, como nos diz, Francisco Sena Santos, "a geração mais informada da história":

PS. Ler o Mundo implica parar, ver, ouvir, observar para agir em conformidade e só o conseguimos fazer se soubermos LER. Por isso, caros decisores, deem tempo aos professores para ensinar e aos alunos para aprender.

 

Oiça aqui a crónica, se preferir:

 

Greta versus Joker

Quem venera quem?

01
Dez19

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As últimas notícias saídas a público sobre as reações do poder político a propósito da vinda de Greta a Portugal parecem saídas de um filme.

Sabe, caro leitor, aqueles filmes em que o realizador, sem meios, atores desconhecidos e um guião muito pobre, tem de fazer "render o peixe"?

Este é o caso dos nossos políticos que, aproveitando o protagonismo de uma adolescente que se tornou viral por todo o mundo, não perde a oportunidade de se lhe colar, pouco preocupado com as questões ambientais, mas muito mais com a notoriedade que tal visita lhes poderá trazer.

Este é o lado cor de rosa, caro leitor!

Depois, temos o dark side, o mundo dos oprimidos, mal tratados, ignorados, espezinhados, usados e gozados. O mundo que é tão bem retratado no fantástico filme de Todd Phillips, Joker.

E você, caro leitor, em que mundo está?

O mundo em que os problemas que se vivem atualmente se esfumam, para se "brincar" ao ativismo, bem patente na carta que o ministro do ambiente português escreveu à ativista “Querida Greta, obrigada pelo teu ativismo"  e largamente alimentado pelos media:

Ou, o mundo real? O do suor! O da lágrima! O da dor! O do desespero de quem é esquecido, tal como retratado no Joker:

Tal como o Joker, face ao mundo em que vivemos, quase duvidamos da nossa própria existência, num sistema cada vez mais falido em que a normalidade é o aceitar da anormalidade.

Afinal, "somos todos palhaços!" como diz o Joker

PS. Fónix! É demais para ser verdade! Afinal quem são os palhaços? Os que aceitam rindo? Os que não têm capacidade para reagir? Os Trump deste mundo, decisores que estão um pouco por todo o lado?

Joker ou Greta, caro leitor?!

Se preferir oiça aqui a crónica:

 

Como (não) se lê na Rede

Vai ler esta crónica?

27
Nov19

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Saímos de manhã cedo, na ânsia de encontrar objetos passíveis de serem fotografados a 3D - a nossa última trend - e na habitual passagem pelas redes, confrontámo-nos com algo que nos tem levado a refletir, isto é, a forma como não se lê na rede.

Se não vejamos, caro leitor... quando partilha ou gosta de um post, em qualquer rede, dá-se ao trabalho de o ler?

Ler é o ato de interpretar o que está escrito, de dar sentidos.

Será que é isso que fazemos na rede? Ou limitamo-nos a colocar gostos em função da pessoa ou instituição que fez a partilha? Ou, ainda, porque uma determinada imagem é apelativa, independentemente do conteúdo que a enforma? Serão as emoções que nos movem?

As redes são potenciais e poderosíssimas fontes de disseminação de informação, mas esta só será útil se a lermos, isto é, se lhe atribuirmos sentidos.

Caro leitor, já pensou nisto? Num mundo que nos foge por entre os dedos, ao invés de nos deleitarmos com aquilo que está escrito ou dito, limitamo-nos a pôr um gosto a determinada pessoa ou a partilhar conteúdos, apenas porque projetam a imagem que queremos que o outro tenha de nós.

Isto, prezado leitor, para não falar do inverso, que daria para uma outra crónica fónix!

Falamos daqueles que veem e leem com atenção posts de qualidade, mas que não partilham, nem gostam, porque acham que estariam a dar protagonismo a outros (pessoas ou instituições) e quebram assim o ciclo da rede, aquele que defendemos, que é partilhar, viver em rede, tornar acessíveis recursos, notícias, reflexões, crónicas verdadeiramente interessantes. Tudo o que nos acrescenta!

De facto, a rede é o espelho de cada um e de todos.

Uns (poucos) vivem plenamente o século em que a partilha e as redes são uma mais valia.

Outros (muitos) passam e estão na rede, sem a viver, isto é, sem a ver. E, para ver, caro leitor, temos de observar, encontrar, escolher, percorrer, provar, conhecer. Em suma, viver.

PS. Os dados estatísticos que as redes nos fornecem são extraordinários, na análise sociológica que nos permitem fazer. Veja-se a título de exemplo: a um post, que linka uma apresentação  que alcança 1200 partilhas e gostos, em apenas 3 dias, correspondem somente 800 visitas ou visualizações efetivas, o que significa que um terço das pessoas partilhou algo que não leu.

Faz pensar, não faz, caro leitor?

 

Verdade 4.0: a era da manipulação

particularidades e evoluções

18
Nov19

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Numa estrada do interior do país, isolados do mundo, sem telefone e, como calculam, desesperados com a inexistência de internet, demos por nós a cogitar sobre os tão apregoados "avanços tecnológicos", presumivelmente criados para nos servir.

E é vê-los a falhar, caro leitor!

A conversa fluiu entre os passageiros do carro que, felizmente, não era elétrico, pois pontos de carregamento nem um, nem mesmo bombas de gasolina. Valeu-nos o carro atestado. Este isolamento conduziu-nos à realidade 1.0, caraterizada por um mundo estático, onde nos limitávamos a observar o que nos rodeava, sem poder interagir, porque não havia com o quê. 

Foi assim que nos sentimos, amigo leitor! Meros observadores.

Os políticos gostavam deste tempo, pois o cidadão era passivo e as suas reações, ainda que existissem, passavam despercebidas.

Fomos avançando na viagem, cada vez mais preocupados com o ponteiro do gasóleo...

Caro leitor, como disse um companheiro de viagem, "ainda bem que o carro é a gasoil, se fosse a gasolina já estávamos à boleia! Como não passa um carro por aqui, nem há telefone, estávamos tramados".

Resolvemos sair da estrada nacional, rumo a uma pequena cidade do interior. Chegados, vimo-nos no mundo 2.0. Já tinhamos rede, apesar da intermitência do sinal, e sentimo-nos parte daquela pequena comunidade. Quiseram saber quem éramos, de onde vínhamos, o que fazíamos.

Enfim, caro leitor, sentimo-nos como os utilizadores da web 2.0 que, sem darem conta, colocavam em risco os seus dados confidenciais.

Não havia multibanco, não aceitavam Visa, porque não gostavam dessas modernices, o MB Way era coisa do outro mundo... e, como só tínhamos 10€, limitámo-nos a tirar o carro da reserva... graças a Deus era a "gasoil".

Tivemos de rumar para o mundo 3.0. Um mundo mais complexo, em que nos compreendiam tão bem como as máquinas - abençoada web semântica, amigo leitor - e em que ninguém se preocupou em saber quem éramos. Aliás, o funcionário do posto de abastecimento passou o tempo a navegar no Facebook e mal nos encarou, apaixonado pelas publicidades escolhidas pelo algoritmo, à sua medida.

É a socieddade do big brother em que o poder nos vigia e sabe a cada instante o que fazemos, o que temos, onde andamos... e com quem interagimos. Tudo isto feito em nome de uma democracia plena.

Uma olhadela pelo escaparate dos jornais levou-nos a imaginar o mundo 4.0! E já que ninguém queria saber de nós - que saudades do interior de Portugal, dolente leitor - não tivemos outro remédio se não o de falar entre nós, o que acabou por se adequar na perfeição à sociedade 4.0, onde o modelo de interação, mais completo e personalizado, é como um espelho mágico que nos dá aquilo que "aparentemente precisamos".

Caro leitor, basicamente, andamos sempre a "comer" o mesmo, pois a inteligência artificial encerra-nos no nosso mundo e só nos mostra aquilo de que gostamos. Fónix! Então agora não podemos experimentar outras coisas?!

Somos apologistas da evolução e acreditamos que a inteligência artificial pode mudar e melhorar radicalmente a nossa vida, através da investigação e do desenvolvimento de novas soluções. Mas custa-nos pensar que somos dominados por conexões que as máquinas analisam à luz das vontades de alguns poderosos que assim NOS manipulam.

Esta nova era, caraterizada pela desinformação e pela manipulação das massas - o tal efeito Trump, caro leitor... já deve ter ouvido falar! - pode levar a sociedade para o abismo. Acreditamos que a educação é o antídoto para um mundo, muitas vezes, "de faz de conta", em que o conhecimento, o espírito crítico, a liberdade de pensamento e a autonomia de atuação de cada um de nós é o bem mais precioso, a preservar.

PS. Retomamos a estrada em silêncio. Estes momentos introspetivos fazem-nos mal. Um silêncio nostálgico tomou conta da viagem. Afinal, não somos mais do que passageiros em trânsito... 

 

 

Faz de conta...

Portugal no reino do faz de conta

02
Nov19

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Numa tarde cinzenta, descíamos a Avenida da Liberdade, quando reparámos que as lojas das marcas de referência estavam cheias de estrangeiros. Comentámos que a classe média portuguesa jamais poderia ser cliente destas lojas, pois um par de sapatos, uma mala, qualquer coisa, custa, facilmente, mais do que o nosso ordenado mínimo. 

Lembrámo-nos dos políticos, da política e, naturalmente, chegámos ao "faz de conta".

Caro leitor, lembra-se das brincadeiras do "faz de conta" de quando era criança?

Tomados pela nostalgia e com uma vontade imensa de irmos gastar o dinheiro que não temos, mesmo recorrendo aos cartões de crédito, vimos logo que só fazendo de conta lá chegaríamos. E, numa de fazer de conta, extrapolámos o faz de conta para este nosso Portugal.

Quer entrar na brincadeira, amigo leitor?

Faz de conta que somos todos iguais! Que, independentemente do partido, da conta bancária, dos amigos, da Família, ou do cargo que desempenhamos, somos todos tratados da mesma forma, seja onde for.

Faz de conta que nos estamos a aproximar dos outros países europeus! Que temos a mesma produtividade, as mesmas reformas, a mesma carga fiscal, o mesmo nível de rendimentos, o acesso tendencialmente gratuito à educação, mesmo no ensino superior.

Faz de conta que nos indignamos e revoltamos sempre que nos mentem, que nos limitam os direitos, que nos fazem promessas que nunca pensaram cumprir.

Faz de conta que temos um bom Serviço Nacional de Saúde! Que em qualquer ponto do país somos atendidos com rapidez e dignidade por profissionais motivados.

Faz de conta que queremos formar os nossos alunos para a cidadania e para o sentido crítico! Que não queremos jovens amorfos, apolíticos e indiferentes.

Faz de conta que a carga horária dos trabalhadores favorece a produtividade! Que quanto maior for a carga horária, maior será a produtividade.

Faz de conta que não estamos a desertificar o interior! Que criamos as condições ao nível dos serviços públicos, saúde, educação, justiça, transportes, de forma a que os portugueses do interior tenham as mesmas condições dos das grandes cidades.

Faz de conta que temos gente impoluta em todos os níveis da administração pública. Que o menor resquício de corrupção é, imediatamente, investigado e severamente punidos os prevaricadores.

Faz de conta que tratamos do ambiente e dos cidadãos. Que não existem casos flagrantes de empresas poluidoras, grandes ou pequenas, que são impedidas de laborar até que as condições de saúde pública sejam restabelecidas.

Faz de conta que todos os profissionais têm o respeito que qualquer cidadão merece. Que os médicos, os professores, os enfermeiros, os motoristas, os assistentes operacionais nas escolas, em suma, todas as classes profissionais têm condições de trabalho dignas e o reconhecimento da sociedade e, sobretudo, do poder político.

Faz de conta que a criminalidade ligeira em Portugal é ínfima. Que a taxa de incidentes tem vindo a diminuir.

Faz de conta que é normal que as empresas que ganham concursos tenham a sede em organismos municipais que, por coincidência, são do partido do governo. Que tudo está bem no poder central e municipal e que o mérito se sobrepõe sempre à lealdade.

PS. Se fôssemos todos crianças a brincar ao faz de conta, estaria tudo bem... mas, caro leitor, infelizmente, não é o caso... e, se não, faça o exercício inverso ao que fizemos nesta crónica, e, em vez de um faz de conta, faça o fact-checking, ou, brinque ao polígrafo. 

Divirta-se, caro leitor.