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Fónix Lab

Laboratório para exprimir (opiniões) admiração, indignação ou impaciência, em torno de temas atuais.

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Escolas inovadoras

Mitos e verdades

02
Fev20

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Os raios de sol despontam e apetece sair de casa. No grupo de amigos não pode faltar, nunca falta, um casal de professores.

A conversa corre natural e boa... e vai parar a uma reportagem emitida, ontem, na SIC Notícias, e já repetida, hoje.

Uma reportagem que nada acrescenta.... mais do mesmo, caro leitor.

A velha sala de aula do futuro! Os nossos colegas professores riem-se sempre destas reportagens, pois sabem que é apenas marketing. A realidade - professores, alunos e pais conhecem-na bem - é que as escolas não têm infra-estrutura, nem tecnológica nem humana, que a sustente, sendo estas "salas do futuro" ou "ambientes inovadores" perfeitamente elementares. Isto é, são uma espécie de arrecadação que alberga alguma da tecnologia, que existe por todos os agrupamentos. Só lhe acrescent(ar)am umas cadeiras com rodas. 

Que maravilha para miúdos e graúdos, não acha caro leitor?

Se não, vejamos:

Um quadro interativo que existe em praticamente todas as escolas, mas que é comummente usado como tela de projeção. A tela de projeção mais cara do mundo!

As cadeiras que deveriam permitir a mudança de estratégia educativa, mas que apenas servem... de cadeira, onde os alunos se sentam para olhar o professor ou o ecrã.

A impressora 3D, usada nas reportagens e depois relegada ao esquecimento e ao pó.

Os computadores e tablets que nem sempre podem ser usados porque a rede não está corretamente dimensionada para os suportar. E isto quando há internet!

A câmara de filmar, raramente usada, e que pode ser substituída, com vantagem, por um smartphone ou um bom tablet.

Enfim, o paraíso para os fornecedores de material eletrónico e o sonho de qualquer Município que assim gasta fundos comunitários e "cativa" os eleitores com obra feita. Concorda connosco, caro leitor?

A conversa flui e rapidamente chegamos à constatação mais básica e universal:

A tecnologia por si só não muda nada, não melhora as práticas letivas, nem os resultados escolares dos alunos.

Já em 2016, o investigador espanhol Alfredo Hernando fez um estudo sobre a escola do séc. XXI onde conclui que as escolas mais inovadoras são as que partilham. “Em termos metodológicos, [as escolas] partilham ferramentas como a aprendizagem através de projetos, as aulas dadas de forma cooperativa, [o facto de haver] ferramentas de avaliação variadas, os compromissos de aprendizagem celebrados entre aluno e professor..."

Realçamos esta conclusão do estudo, caro leitor, "As aulas devem ser feitas pelo aluno, não pelo professor“, defende.

PS. Temos de ensinar os nossos alunos a pensar, a transformar a informação em conhecimento, a tomar posições fundamentadas, a saber ouvir, a fazer-se ouvir, a comunicar! E se pudermos fazer isto em ambientes inovadores, aí sim estaremos no caminho certo!

Se preferir oiça o podcast:

A emergência da leitura

Aprender a ler, para ler o Mundo (PISA, 2019)

15
Dez19

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Clique na imagem para ver o infográfico

Na semana em que saíram os resultados do PISA, ficámos confusos perante a discrepância das notícias. Como é possível ler e inferir conclusões diferentes de um mesmo relatório? Afinal a escola que temos construído permite aos jovens desenvolver as competências que as políticas educativas por todo o Mundo consideram cruciais?

Parece-nos claro que, de uma forma geral, os media se preocuparam em polarizar o lugar que cada país ocupa no ranking, sem refletirem sobre o impacto que estes resultados deveriam ter nas políticas educativas europeias e mundiais.

Caro leitor, sabemos que a economia, assente no capital humano, se preocupa com estes rankings, mas será que os resultados obtidos são o retrato fiel do que sabem os alunos de cada país?

Alguns especialistas, um pouco por todo o Mundo, chamaram a atenção para a heterogeneidade dos países participantes e para a tremenda diferença que existe entre os diversos sistemas educativos. Não esqueçamos, ainda, a manipulação de dados, quer na fonte, com a seleção criteriosa das escolas e dos alunos que responderam aos questionários, quer centralmente, veja-se o caso de Espanha.

Os sociólogos que se debruçaram sobre estes resultados refletem, sobretudo, acerca das desigualdades que caracterizam os sistemas educativos, sendo clara a relação que existe entre os bons resultados no PISA e a valorização, pela sociedade, da escola, do ensino e dos professores. Não é tanto uma questão de melhores condições de trabalho e remuneratórias, mas sim de cultura.

Alguns analistas, como Maxime Tandonnet, alertam, também, para o perigo de se terem passado décadas e décadas a nivelar a qualidade do ensino por baixo e chamam a atenção para os perigos daí decorrentes.

De facto, é extraordinariamente preocupante que um em cada 10 alunos não distinga factos de opiniões, apesar de esta ser, como nos diz, Francisco Sena Santos, "a geração mais informada da história":

PS. Ler o Mundo implica parar, ver, ouvir, observar para agir em conformidade e só o conseguimos fazer se soubermos LER. Por isso, caros decisores, deem tempo aos professores para ensinar e aos alunos para aprender.

 

Oiça aqui a crónica, se preferir:

 

A Escola numa encruzilhada

Entre as modas e o peso da tradição

06
Set19

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O século em que vivemos não para de nos surpreender e maravilhar. Na impossibilidade de estarmos presentes num encontro de professores, só possível como infiltrados, foi com alegria inusitada que descobrimos nas redes sociais, where else?, o podcast da intervenção do professor António Sampaio da Nóvoa, no passado dia 4 de setembro, em Oeiras, que, sejamos francos, faz uma receção aos professores digna da notabilidade que estes deveriam ter... à beira da piscina, com música, o mar ao fundo e o que degustar.

Caro leitor, a clareza, a visão e a conjugação entre clássicos e contemporâneos, neste pensador português, surpreendem-nos sempre. Concorda, prezado leitor?

A Escola, quer tenhamos filhos em idade escolar, ou não, "é um bem comum" (A. Nóvoa), e é, por isso, um tema recorrente e obrigatório, para  o cidadão e para a sociedade no seu todo. Preocupa-nos, assim, vê-la numa espécie de "camisa de forças", dividida entre a necessidade de (se) inovar e o peso da tradição, própria de qualquer instituição que é balizada por normativos e que se rege por tradições seculares.

As modas na educação, forçadas pela contínua pressão do digital, que está cada vez mais presente no dia a dia do cidadão, empurram a Escola para a experimentação de todas as inovações que vão aparecendo, vendidas como "miraculosas" para o sucesso. E lá se veem os professores enredados numa rede que não funciona - a wi-fi - com equipamentos obsoletos e com alunos que não percebem o fim último desta "agitação" educativa.

Por outro lado, as "grandes reformas educativas" prometem a tão desejada autonomia, para que cada escola possa cumprir o seu desígnio, mas, quando os professores dão conta, estão a preencher plataformas e a prestar contas, como nunca.

Sejamos francos, amigo leitor! Haverá quem perceba mais de educação do que os próprios professores?

Concordamos em absoluto, com A. Nóvoa, quando diz que a Escola e os professores são insubstituíveis. E sabemos que não há inovação nem mudança que não parta da própria Escola. 

Lembra-se de já termos falado sobre isto, caro leitor? Quando dissemos, na crónica "Do uso da tecnologia na escola", que é a cultura de escola que alavanca qualquer mudança?

De facto, os professores não podem virar as costas aos "aportes" que a tecnologia e a ciência podem trazer à educação, mas, como para qualquer profissional, o tempo de integração, de experimentação e de avaliação é fundamental.

Preocupem-se os políticos e os órgão de gestão de municípios, de comunidades intermunicipais, de agrupamentos e de escolas, em criar as condições para um ambiente educativo capaz de se adequar a novas formas de organizar o tempo, o espaço e as pessoas. Para não falar dos currículos.

Afinal, caro leitor, não era para isto que deveria servir a tão badalada flexibilidade?

A História comprova-nos que as modas vão e vêm e que se mantém o essencial, como já dizia António Sérgio, em 1916.

"O trabalho na escola deve organizar-se em torno de centros de interesse, tendo em consideração “os interesses espontâneos da criança e as atividades económicas locais” António Sérgio (p. 144, 1916)."

PS. Palavras na ordem do dia para qualquer educador, mas também para qualquer cidadão: emoção e motivação. Criem-se as condições para que qualquer profissional, ou cidadão, possa viver a sua vida, profissional e pessoal, em pleno.

 

 

 

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